Formar não é só ganhar

Semana após semana vemos treinadores e pais obcecados com vitórias!
Tal, seria natural se tivéssemos a falar de alta competição, mas, nos escalões mais baixos da formação, isto faz algum sentido?
Apenas devem jogar os 7 melhores e meter os teoricamente mais “fraquinhos” quando o resultado está feito?
Quando temos um miúdo que é exímio na marcação de um livre ou penalti, deve ser esse miúdo a executar todos esses lances?
Devemos passar o jogo a dar indicações aos nossos atletas ou devemos deixar que eles errem, mesmo que isso traga um mau resultado à equipa?
A minha experiência diz-me que os atletas, desde muito novos, apercebem-se se são ou não importantes num grupo e se, constantemente, verificarem que estão em 2º ou 3º plano, acabam por desmotivar e por criar um complexo de inferioridade com os colegas que são “escolhidos”.
Todos têm o direito de participar em todos os momentos do jogo, não faz qualquer sentido, durante uma época, serem sempre os mesmos a marcar os lançamentos, cantos, livres. Por muito “fraquinho” que seja o seu remate, qualquer miúdo, deve ter a oportunidade de marcar um livre, mesmo que o resultado esteja “apertado”, até porque, muitas das vezes, os miúdos que têm menos oportunidade hoje, daqui a um ano ou dois são os melhores da equipa.
Às vezes, durante os jogos, dou por mim a pensar se sou o único que me esqueci do comando da “playstation” em casa, visto que me deparo com imensas pessoas a dizerem aos miúdos “passa…cruza…remata…corre…acorda”, que eu chego ao ponto de pensar se estou a ver um jogo de miúdos (os homens do amanhã) que vão ter de tomar decisões sozinhos e que estão na idade de errar, ou se estão a jogar “robots” que têm de fazer tudo aquilo que os treinadores/pais querem.
O grande problema que existe no futebol dos mais “pequenos” é que vemos os clubes e os seus treinadores a falar constantemente em valores, respeito, formação, e essas palavras todas bonitas, mas, quando a bola está a rolar, a história é outra, e na maioria dos casos, o sucesso pessoal e a “sede de vencer” falam mais alto.
Será que a maior felicidade, no fim dos jogos dos nossos miúdos, é o facto de terem vencido o jogo?
Podem ter a certeza que se todos eles tiverem um momento, basta um momento de sucesso, em toda a partida, e se este for valorizado no fim do jogo, tanto pelo treinador como pelos pais, o miúdo vai ficar contente e motivado para voltar aos treinos na semana seguinte, mesmo que o resultado tenha sido negativo.
Aplicações práticas:
Nós, como treinadores, devemos criar as nossas próprias regras de maneira a cometermos o mínimo de erros possíveis e sermos o mais justos que conseguirmos com os nossos atletas. Faz-me muita confusão ver jogos de, por exemplo, 60 minutos, e alguns atletas jogarem 5, 10 minutos, ou até nem jogarem. Claro que depende sempre da idade deles e do contexto em que jogam, mas devem criar um limite mínimo de tempo jogado para cada atleta que seja convocado, como, por exemplo um terço do jogo. Durante o jogo existem muitas situações que não podemos controlar, como lesões ou cansaço dos atletas, mas, sem que uma dessas situações aconteça, considero que não faz sentido fazer substituições nos últimos segundos da primeira parte ou no final da partida, Basta repararmos na cara dos atletas quando o árbitro apita, onde se verifica uma tristeza enorme. Posto isto, sugiro que, dependendo da duração das partidas, nunca façam substituições nos últimos 3/5 minutos de cada parte, permitindo assim que todos os atletas “sintam” o jogo sempre que entram em campo.

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